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Royale With Cheese | ||
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Sexta-feira, Maio 09, 2008 BEIJING BASTARDS: Título: Beijing Za Zhong Realizador: Yuan Zhang Ano: 1993 ![]() Para nós, distraídos ocidentais, a China é só artes marciais, tai chi e comunismo. Por isso, se eu vos disser que a China também é muito rock'n'roll, vocês vão certamente ficar admirados. Bem, não é bem assim... Primeiro, a China começou por ter uma cena rock no início da década de 90, mas ela foi fugaz; com os confrontos de Tianamen, o Partido Comunista Chinês apertou a censura e acabou com o rock. Contudo, actualmente, com a abertura do país ao ocidente, o rock'n'roll tem vindo a sobressair no underground musical e são já muitas as bandas que merecem destaque no género. Podem comprová-lo no artigo que vem hoje no Ipsilon. Se não tiverem paciência para lerem tanta letra, então eu resumo-o a três simples palavras: My Little Airport. Essa primeira fase do rock chinês ficou perpetuada num documento marcante da cultura chinesa: o filme Beijing Bastards, o primeiro filme totalmenete independente do país e um símbolo da contra-cultura local, que despontou para as luzes da ribalta o realizador Yuan Zhang. Mas não se deixe enganar como eu: Beijing Bastards não evoca o rock chinês, mas antes a essência dessa mesma realidade. Através de um filme-mosaico algo desconstrutivista (minimalista?), Beijing Bastards apanha em três estórias - a do jovem Karzi, que procura a sua namorada que fugiu grávida; a do pai do rock chinês, Cui Jian, que fica sem local para ensaiar com a sua banda rock; e a de Daqing, que vai ajudar o seu amigo Yellow a tentar recuperar o dinheiro de uma dívida -, que apesar de parecerem não ter nada a ver, têm em comum o facto de terem como protagonistas jovens inadaptados, assimétricos à moralidade do Partido Comunista Chinês. Em suma, são rebeldes contra a condescendência da sociedade que os envolve, apesar de isso poder ser confundido com hedonismo, irresponsabilidade, desrespeito, ou, simplesmente, uma vida sem sentido. Beijing Bastards é um verdadeiro filme independente, quando este ainda não se tinha tornado ele próprio num género; um filme longe de qualquer convenção artística pré-definida, apenas fiél às firmes convicções do seu realizador. Além disso, o baixo orçamento resulta numa fotografia com problemas de luminosidade e actores que nem sempre sabem o que fazer. Contudo, tudo isto também pode ser entendido como pretensionismo de Yuan Zhang, que parece ter andado a ver os filmes sobre o alheamento do Antonioni e que quis imitar o efeito choque de Larry Clark, com o recurso a uma linguagem cheia de palavrões e a acções moralmente repreensíveis, que se sucedem a velocidade super-sónica. Tudo isto é intercalado com o rock de Cui Jian, algo datado e com as caracteristicas épicas dos anos 80, que abre o filme de forma excelente com uma super-balada cheia de sentimento. Infelizmente, se o princípio parecia ser um teledisco romanceado, o resto do filme limita-se a simples actuações musicais, que servem apenas como catálogo do que era o rock chinês naquela altura. Constou-me, através de alguém que sabe desta poda, que os outros filmes de Yuan Zhang são bem mais interessantes; também o novo rock chinês é bem mais giro. Por isso, não se admirem de Beijing Bastards ser apenas um Cheeseburger. ![]()
Posted by: dermot @
11:55 AM Quinta-feira, Maio 08, 2008 SALA DE PÂNICO: Título: Panic Room Realizador: David Fincher Ano: 2002 ![]() David Fincher é um realizador especial. Apesar de ter vindo directamente do mundo dos telediscos, algo que nunca agoira nada de bom, Fincher provou logo com Alien - A Desforra que não era um cineasta qualquer e nas três tentativas seguintes conseguiu três obras-primas perfeitas. Três hole in one em três tentativas: qual é a probabilidade de isto acontecer? Depois veio este Sala De Pânico que é, quiçá, o pior filme de Fincher. Quer dizer, não é que seja mau. É antes o menos bom. É a chatice de nos ter habituado tão mal; agora, faça o que fizer, David Fincher terá sempre a fasquia elevadíssima e as expectativas estarão sempre no máximo. Jodie Foster substituiu à última da hora Nicole Kidman para encarnar Meg Altman, uma recém-divorciada de um marido famoso (e rico), que se muda com a filha para um casarão enorme no centro de Manhattan. Para além de três pisos, um elevador e vários quartos, a casa tem ainda uma característica especial: uma sala de pânico, uma divisão blindada impenetrável, que vai servir que nem ginjas para as duas se esconderem durante um assalto à casa por parte de três bandidos. David Fincher é um realizador extremamente urbano, não pela forma como filma a própria cidade, mas antes pelo modo como consegue captar o modo de vida citadino das suas personagens: o stress, a impessoabilidade e a tensão. As personagens dos filmes de Fincher são quase sempre meninos da cidade, que se fosse para o campo iriam ficar admirados pelo leite não vir dentro de pacotes e das batatas nascerem dentro da terra. Em Sala De Pânico, a acção é confinada durante quase duas horas a uma casa no geral e a uma sala em particular. É o cenário mais hitchcockiano em que Fincher já se moveu e utiliza-o de forma irrepreensível, conjugando as forças verticais e horizontais com grande tensão, recorrendo várias vezes a travelling brutais (De Palma rói-te de inveja), alguns com recursos a efeitos digitais. Sala De Pânico respira Hitchcock por todo o lado: na própria premissa da história (duas pessoas presas numa sala sem poderem sair e três outras do lado de fora sem puderem entrar), no suspense em crescendo que vai-se acumulando até explodir no final, na forma como é explorada a arquitectura da casa (lembrando Janela Indiscreta) e até nos créditos iniciais. Tal como em alguns filmes de Hitchcock, também Sala De Pânico não é feito para se pensar muito. Porque senão começamos a sentir o quão ridículo é o argumento (mais ou menos o que acontece com Intriga Internacional). Contudo, isto são precalços que se resolvem ao desligar o cérebro. Mais difícil é contornar os clichets que Fincher vai buscar para caracterizar as personagens principais: haveria algo mais conveniente do ponto de vista dramático do que uma mãe claustrofóbica e uma filha diabética presas num bunker deonde não podiam sair? Sala De Pânico é um excelente thriller psicológico e jogo de suspense em crescendo, na tradição do que Fincher já fez de melhor. Contudo, a premissa do filme não deixava de ser limitada e, por isso, a coisa tinha prazo de validade: ou o filme ficava minúsculo, ou passava a última meia-hora a repisar as mesmas pegadas, ou tentava outra coisa no final. E foi esta última opção que Fincher escolher, transformando Sala De Pânico num filme de acção no último terço. Os personagens trocam então de lugar e Jodie Foster veste a pele que iria aperfeiçoar A Estranha Em Mim. E aqui Sala De Pânico começa a soçobrar por todo o lado. Assim, Sala De Pânico vai sabendo às vezes a McBacon, outras vezes a McChicken... ![]() Terça-feira, Maio 06, 2008 SUPER BALDAS: Título: Superbad Realizador: Greg Mottola Ano: 2007 ![]() Depois de aqui há um par de semanas me ter desfeito em elogios a Um Azar Do Caraças, eis-me de volta para comentar o outro filme desta nova família de comédias, iniciada com Virgem Aos 40 Anos: Super Baldas. Comparado com os seus parentes mais velhos, Super Baldas é o mais imaturo de todos. Mas também tem uma justificação bem plausível para isso, uma vez que o seu argumento foi escrito pelo cada vez mais respeitável Seth Rogen e o seu amigo de longa data Evan Goldberg quando tinham apenas 13 anos. Por isso, Super Baldas é um regresso à comédia adolescente de liceu. Estamos então de volta ao terreno de American Pie - A Primeira Vez: Seth (Jonah Hill) e Evan (Michael Cera) são dois melhores amigos a duas semanas de terminarem o liceu, onde não são propriamente populares, antes de irem para universidades diferentes e se separarem para sempre. Contudo, esta filme sobre a amizade entre amigos está mascarado com o fato da comédia screwball, com várias miúdas giras e os dois amigos (mais o super-geek Fogell (Christopher Mintz-Plasse), a perpetuar a dinastia dos cromos com grande classe, sob a alcunha de McLovin) a ver se se safam antes do fim das aulas. Apesar do American Pie alert, não há motivo para nos preocupar. Porque apesar do tema do sexo ser comum, a coisa é tratada de forma diferente, mais sofisticada, como em Virgem Aos 40 Anos ou Um Azar Do Caraças. Ou seja, apesar dos palavrões e das piadas sexuais, existem personagens bem mais tridimensionais, diálogos mais inteligentes que recorrem constantemente à cultura popular e uma abordagem que não toma o espectador como um mero tótó. Por isso, Super Baldas relembra muito mais as comédias underground como Napoleon Dynamite e Nacho Libre, com os seus inadaptados e o humor absurdo, do que a comédia slapstick e desbragada dos American Pies e suas variações. Super Baldas tem momentos geniais, daqueles que perduram para os anais da comédia, a saber: o BI falso de Fogell, sob o nome do havaiano McLovin e com uma foto genial, ou a surreal história de infância de Seth, em que era viciado e obsecado em desenhar pilas. Além disso, há ainda dois polícias que fazem de sidekicks a si próprios que são hilariantes (o próprio Seth Rogen e Bill Hader) e que não me admirava nada que dessem azo a um spin-off de um filme só deles. Não percebo muito bem porquê a escolha em filmar Super Baldas como se fosse um filme dos anos 70, com soul e funk music a condizer e os filtros de cores adequados, mas não deixa de dar um certo estilo ao filme. Além disso, não se furta ao final feliz e a uma conclusiva mensagem moral - afinal de contas, é uma comédia -, mas, tal como Um Azar Do Caraças, peca por ser demasiado longo para o género. Nada que belisque o McRoyal Deluxe final. ![]()
Posted by: dermot @
12:15 PM Domingo, Maio 04, 2008 [REC]: Título: [Rec] Realizador: Jaume Balagueró & Paco Plaza Ano: 2007 ![]() Quando em 1999 estreou O Projecto Blair Witch, uma nova página foi virada na história do cinema. E não estou a falar das campanhas publicitárias virais, mas antes de um género de filmes muito específicos, ficções realizadas como se fossem histórias reais, filmadas na primeira pessoa e vividas ao mesmo tempo pelo espectador e pelo protagonista. Em suma, são uma variação realista dos mockumentários. Estranhamente, a coisa não abriu um precedente como seria de esperar. E foi preciso esperar 9 anos para que voltasse a surgir um filme que fosse filmado pelo próprio protagonista. Ou pelo menos um que interessasse... E como é sabido, neste mundo da sétima arte estas coisas surgem sempre aos pares: Impacto Profundo e Armageddon, Wyatt Earp e Tombstone, ou Vulcão e O Cume De Dante. Por isso, eis Nome De Código: Cloverfield e [Rec]. Esta imodesta prosa debruça-se sobre o segundo, o filme espanhol que tem espantado meio mundo, venceu tudo e todos no Fantas deste ano e até já está a ser refeito pelos idiotas de Hollywood em mais uma americanice sem jeito. Além disso, tem sido descrito pelos fãs do terror como um "Cloverfield mas em melhor", o que é o melhor elogio que se lhe pode fazer. [Rec] é então um irmão bastardo de O Projecto Blair Witch, só que aqui em vez de um grupo de jovens, temos uma jornalista, Angela (Manuela *suspiro* Velasco), e o seu operador de camera, Pablo. Os dois estão a acompanhar uma equipa de bombeiros em acção durante a noite e vão segui-los até a uma chamada de emergência, a alertar para uns gritos suspeitos num dos andares. E de repente, jornalista, bombeiros, polícia e moradores vêem-se trancados no prédio pelo governo numa quarentena misteriosa, enquanto uma velha de pijama, uma portuguesa anorética e um sem número de ameaças escondidas vão matar tudo e todos. E tudo isto enquanto o operador de câmera filma tudo, sempre calado e sempre sem ajudar ninguém. Porque "alguém tem que filmar aquilo para que sirva de prova, como alguém refere. Temos então um prédio sitiado, onde um grupo de pessoas vai entrar em conflito entre eles à medida que a tensão aumenta, até terminar tudo num banho de sangue, sempre filmado na primeira pessoa, com uma câmera ao ombro, por um dos personagens. Exacto: há muito O Projecto Blair Witch, mas também há O Cubo, remeniscências do Stephen King e... spoilers à parte, um cheirinho a Romero (Zombie, A Maldição Dos Mortos-Vivos não é uma escolha descabida). Pode parecer uma ideia descabida, mas o que é certo é que a coisa funciona. Quer queiramos quer não, a câmera ao ombro dá um realismo extra à coisa e acabamos sempre por entrar dentro do espírito do filme por mais preparados que estejamos. E neste ambiente, as jump scenes funcionam sempre bem. Por isso, [Rec] dá direito a uns bons saltos na cadeira. [Rec] é um dos bons filmes de terror da actualidade: asusta, interessa, não faz rir (pelo menos muito) e tem miudinhas sanguinárias. Além disso, faz de nós, portugueses, responsáveis pelo início do fim do Mundo. Como alguém disse num fórum algures, podemos ser os últimos em muita coisa, mas pelo menos somos os primeiros a foder os outros. Tem havido também muita gente a queixar-se do fim previsível e clichet; o problema ali é a falta de imaginação. Porque aquele final era inevitável... Confesso que li algumas críticas ao filme que me deixaram um pouco de pé atrás, mas depois de o ver com os próprios olhos e de o poder avaliar por mim próprio, só consigo não deixar de ficar aliviado por o Fantasporto continuar a manter-se como um selo de qualidade. E entretanto aposto que o remake norte-americano não vai valer nem metade do McRoyal Deluxe. ![]() Quinta-feira, Maio 01, 2008 NÃO ESTOU AÍ: Título: I'm Not There Realizador: Todd Haynes Ano: 2007 ![]() Com Velvet Goldmine, Todd Haynes já tinha mostrado que não era um simples apreciador de música, que gostava de fazer uns simples filems biográficos acerca dos seus músicos favoritos. Todd Haynes é antes um melómano obsessivo e compulsivo, que prefere fazer filmes sobre as próprias cenas musicais e tudo o que lhe está inerente, do que se limitar aos simples intérpretes. Por isso, adivinhava-se à partida que este Não Estou Aí, filme baseado livremente na vida e obra de Bob Dylan, não iria ser um simples bio-pic. Porque ao contráiro deste género, em que os realizador partem do pressuposto que o espectador é uma criança de 5 anos e não sabe nada acerca do representado, Todd Haynes faz ao contrário, presumindo que os espectadores sabem como ele todos os pormenores da história da música, construindo elaboradas histórias com eles. Era assim em Velvet Goldmine, um filme que mais do que uma romantização da vida do alter-ego de David Bowie, Ziggy Stardust, e dos seus contemporâneos Marc Bolan e Iggy Pop, era uma fantasia acerca do glam-rock e de toda a cena socio-cultural que daí adviu. E é assim Não Estou Aí, adaptação simbólica da vida e obra de Bob Dylan, um dos maiores ícones do século XX e um mestre da palavra. Fora os devidos exageros, a melhor forma de entender Bob Dylan é compará-lo com Fernando Pessoa. Contudo, no caso do norte-americano não são tanto heterónimos, mas antes personalidades que se alteraram consoante os sinais do tempo. E Todd Haynes toma este pormenor literalmente e desconstrói a vida de Bob Dylan em sete camadas, recorrendo a seis actores diferentes para representar cada uma essas sete fases da vida - Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Heath Ledger - e recorrendo a sete formas de filmar distintas para as distinguir a todas, desde o preto e branco ao 16mm granulado. O resultado final é uma espécie de fantasia ao bom sentido de Across The Universe, mas em formato-mosaico e de natureza artsy. Infelizmente, chegando ao fim, a coisa não vai necessariamente fazer todo o sentido; e ao contrário dos filmes surrealistas, não ficamos necessariamente com a impressão de que ficou algo escrito nas entrelinhas. O problema de Não Estou Aí é que, ao contráiro de Velvet Goldmine, que mesmo para quem não estivesse familizarizado com o glam-rock acabava por ser uma boa história de auto-estima, não consegue manter-se em pé para aqueles que não conhecem a complexa história do Bob Dylan. Para estes, Não Estou Aí é apenas uma miscelânea de episódios aleatórios sem grande sentido. Não Estou Aí tem ainda feito furor devido a uma das facetas de Dylan: a elétrica, representada por Cate Blanchett, que se supera completamente. Também é verdade que esta é a faceta que mais mimetiza o próprio Bob Dylan, mas também não deixa de ser a mais feliz no filme de Todd Haynes. É fantástica a desconstrução surrealista que o realizador faz da primeira apresentação eléctrica da banda no Festival de Folk de Newport, com uzis em vez de guitarras eléctricas, ou o ambiente felliniano escalpelizado de 8 1/2 que é pintado a visita de Dylan ao Reino Unido, com a beatlemania em pano de fundo ( e com Brian Jones, o tipo daquela "banda de covers", os Rolling Stones). Para quem não é fã de Bob Dylan, Não Estou Aí irá certamente soçobrar. Para os outros, será menos doloroso, mas mesmo assim não será o filme que estariam à espera. Eu pelo menos estava à espera de outra coisa, ou mais simbólico, ou mais literal. Assim, é apenas um McChicken que serve para ouvir boa música e enganar a fome às vezes. ![]()
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11:22 AM Quarta-feira, Abril 30, 2008 THRILLER - A CRUEL PICTURE: Título: Thriller - En Grym Film Realizador: Bo Arne Vibenius Ano: 1974 ![]() Quando Quentin Tarantino realizou a saga Kill Bill, durante meses recuperaram-se todos os filmes que haviam influenciado aquela história de violação e vingança. Falou-se muito de A Noiva Estava De Luto, falou-se ainda mais de Lady Snowblood, mas infelizmente não se falou tanto quanto se devia de Thriller - A Cruel Picture. Até porque não existe tal coisa de falar demais acerca de Thriller - A Cruel Picture. Este é um daqueles filmes que é a cara de Tarantino: esquisito, desconhecido e, especialmente, doentio. E sublinhem esta última parte. Thriller - A Cruel Picture é um obscuro filme sueco de culto de série-b, que redifine o género exploitation em pouco mais de hora e meia. Na sua Suécia natal, país tão habituado a filmes softcore e erotico-friendlys, Thriller - A Cruel Picture foi banidíssimo e escorraçado para o desterro por uma multidão em fúria. Para quem nunca ouviu falar, basta quase dizer que Thriller - A Cruel Picture foi um dos filmes que inspirou fortemente a saga Kill Bill, nomeadamente a personagem zarolha de Daryl Hannah. Aqui, a protagonista é a bela modelo Christina Lindberg, que com um bocadinho menos de sorte poderia muito bem pertencer a um filme da Teresa Villaverde - Madeleine (o nome da sua personagem) é o protótipo da coitadinha, personagem habitual dos filmes de Villaverde, a quem acontecem todas as tragédias. A saber: violada quando era pequena por um velho demente, o trauma deixou-a muda para toda a vida. Anos mais tarde, é raptada por um tipo bem parecido, Tony (Heinz Hopf), que a vicia em heroína e a transforma em escrava sexual e prostituta. E quando recusa um cliente, este arranca-lhe um olho com um bisturi, fanzendo a cena de Um Cão Andaluz parecer uma coisa de meninos. Esta é a gota de água que faz transbordar o copo e a partir daqui, Madeleine vai canalizar todo o seu dinheiro em aulas de tiro, combate corpo a corpo e condução para se vingar de tudo e todos. Para perceber de que tipo de filme estamos a tratar, basta explicar um pouco a sua origem: Thriller - A Cruel Picture foi realizado anonimamente por Bo Arne Vibenius, que precisava desesperadamente de pagar umas dívidas. Decidiu então realizar o filme de merda mais comercial de sempre. Assim, agicou a história mais cruél e sádica de sempre, levou o gore ao limite e de forma a capitalizar ao máximo o filme, abriu as portas do mercado cinematográfico norte-americano ao inserir-lhe cenas pornográficas. Sim, Thriller - A Curel Picture é um filme porno. Mas um bom filme porno. Ou pelo menos o único filme porno com um argumento de acção. Poderíamos ter o habitual cenário do tão mau que se torna bom, mas Thriller - A Cruel Picture consegue ter verdadeiras boas ideias, que apesar de não serem conseguidas fazem dele um filme especial. Na parte do mau estão as partes porno, sem qualquer pretensão artística - meras sequências pornográficas, que englobam o ramalhete todo: masturbação, sexo lésbico, ejaculação, masoquismo... -; estão as partes de acção, todas elas em super-câmara-lenta, que fazem as cenas de pancadaria parecerem uma versão ridícula de Laranja Mecânica; e a minimalista (deve-se ler irritante) banda-sonora, que fazem as do Carpenter parecerem composições clássicas capazes de rivalizar com Beethoven. Mas estão lá boas ideias: a bela Christina Lindberg tem muito estilo com a sua gabardine preta e uma caçadeira de canos serrados, num look Matrix meets Exterminador Implacável, apesar de não ter muito jeito para andar a correr e às cambalhotas. Christina Lindberg tem também um excelente guarda-roupa no que diz respeito às palas para os olhos, que Daryl Hannah copiou alarvemente em Kill Bill; e tem o final mais sádico de sempre, que só por ele valia um remake em condições. Thriller - A Cruel Picture é um mau filme, mas não deixa de ser interessante por vários motivos. Assim, o Double Cheeseburger não o deixa ser bom nem mau. Antes pelo contrário. ![]() Sábado, Abril 26, 2008 UM AZAR DO CARAÇAS: Título: Knocked Up Realizador: Judd Apatow Ano: 2007 ![]() Apesar de ser muitas vezes menosprezada pela crítica de cinema dita séria, a comédia é um género difícil de fazer, quiçá o mais difícil de todos. Toda a gente sabe que é mais complicado fazer alguém rir do que chorar... Deve ser por isto que não é habitual encontrar muitas comédias nas listas dos melhores filmes de sempre. Infelizmente, o género parece ter vindo a definhar lentamente na última década. Apareceu um interessante American Pie - A Primeira Vez que originou numa saturação da comédia screwball e o ZAZ style estrabuchou numa série de nulidades horripilantes - os chamados filmes a gozar com outros filmes. Felizmente, nós, pessoas pacientes, soubemos esperar e parece ter chegado a bonança após a tempestade: no último par de anos, uma trupe de gente engraçada emergiu para espezinhar os Adam Sandlers, os Rob Schneider e os Mike Myers deste mundo. Essa trupe é um conjunto de gente que se destacam por serem... normais. Não são as habituais estrelas bem-parecidas que estamos habituados a ver na indústria: são antes gordos, peludos, baixotes... Enfim, pessoas normais. E representam-se a elas próprias. E como as pessoas normais, gostam de fazer coisas normais: beber uns copos, fumar umas ganzas, sair com os amigos... No fundo, são gente como nós e idenitificamo-nos com elas. Estou a falar de gente como Steve Carell, Seth Rogen, ou Jonah Hill. Finalmente, os geeks e os nerds estão a dominar Hollywood. Como quando uns movie brats tomaram conta das coisas há umas décadas atrás... Um Azar Do Caraças (finalmente uma tradução porreira; melhor só se fosse Prenha) é mais um dos filmes dessa gente, realizado por Judd Apatow, o mesmo tipo de Virgem Aos 40 Anos, que podemos dizer que foi o momento charneira para esta nova era cómica. A história é simples e já foi contada muitas vezes: há um tipo - Ben Stone (Seth Rogen), desempregado, mal-amanhado, que passa os dias comos amigos a pedrar-se e a ver filmes com nus -, há uma tipa - Alison Scott (Katherine Heigl), bem-sucedida, rica, com uma carreira à porta -, há uma noite de copos e os dois acabam debaixo dos lençóis contra todas previsões. E ao fim de 9 meses, voilá... está completado o inesperado triângulo amoroso. No fundo, é aquilo que chamamos de comédia romântica. Só que subvertida. Primeiro, porque é realista. Enquanto que nas comédias românticas habituais os protagonistas são sempre bem-parecidos (mesmo quando são prostitutas) que se apaixonam por gente ainda mais bem-parecida, aqui estamos a falar de gente normal. Este poderia muito bem ser um daqueles casos que acontecem aos nossos amigos ao fim-de-semana. E depois a coisa é tratada como se fosse mesmo um desses casos, com uma linguagem tu-cá-tu-lá, personagens amigáveis e episódios corriqueiros. A minha amiga Sara diz aqui que não é por causa disto, mas antes por ser um chick flick para gajos. E talvez tenha razão. Ou então, o mais provável, é termos os dois razão... Um Azar Do Caraças consegue ser divertido sem ser brejeiro, consegue não aborrecer mesmo passando pelos lugares-comuns do género (porque ao fim e ao cabo é uma comédia romântica e as muletas do género acabam por lá estar) e consegue entreter mesmo sendo demasiaod longo para o estilo. E mesmo sabendo como vai acabar, aguentamos até ao fim e, inclusive, os créditos. Ao contrário de Virgem Aos 40 Anos, não há nenhuma cena memorável que perdure para os anais da sétima arte humorística (pronto, talvez a cena da revelação da gravidez no restaurante, mas isso não é bem uma cena, é mais um diálogo), mas existem tiradas espirituosas e trapalhadas que vos irão fazer soltar gargalhadas. Das verdadeiras. O McRoyal Deluxe atesta a qualidade. ![]() Sexta-feira, Abril 25, 2008 ACÇÃO TOTAL: Título: Yat Goh Hiu Yan Realizador: Sammo Hung Kam-Bo Ano: 1997 ![]() 25 de Abril, feriado nacional, trinta graus lá fora e eu enfiado em casa, refém da enfermidade. Para combater a depressão, nada melhor do que recorrer à velha e fiél TVI dum feriado à tarde. E, mais uma vez, não me arrependi, porque das três, um destes filmes deveria estar a dar: um filme com um animal que pratica algum desporto; um filme do Jackie Chan; ou O Pai Da Noiva. Estava a dar um filme do Jackie Chan... Para ser mais exacto, estava a dar Acção Total, que segundo os entendidos, é um rip-off de Jackie Chan Nas Ruas De Bronx, mas com a Austrália em vez do Bronx e sem a cena do hovercraft. Isto são as más línguas porque no fundo toda a gente sabe que o Jackie Chan passou anos a fazer o mesmo filme, enquanto seduzia os ocidentais com as suas habilidades, em que a única coisa que muda é a sua profissão, porque até a sua personagem se chama sempre Jackie. Aqui, Jackie é um cozinheiro. Há então uma gangue de rufias que se vestem como Os Selvagens Da Noite, que roubam cocaína a um barão da droga local. Quando vão fazer a transação, uma jornalista (Gabrielle Fitzpatrick) filma a cena toda, mas deixa-se ser catada. Os maus vão todos atrás dela para destruir a cassete e durante a perseguição tropeçam em Jackie. Big mistake! Jackie detesta ser incomodado. O argumento é só isto e, no fundo, até é uma ofensa chamá-lo de argumento. É antes um pretexto para dar início ao jogo do gato e do rato, com Jackie Chan e uma mão cheia de mulheres a fugir, e com vários bandidos atrás. Depois, é só mudar o cenário: perseguições a pé, perserguições de carro, perseguições de carroça, perseguições em centros comerciais, perseguições em prédios em construção e perseguições com tratores gigantes. Os actores são maus, forçam o sotaque americano e fazem overacting constantemente, não se sabe bem porquê. Mas isto não interessa para nada porque, tal como os outros filmes ocidentais de Jackie Chan antes de chegar a Hollywood, este só serve para mostrar as acrobacias dele. E para quem nunca viu (o que duvido), vale bem a pena vê-las durante hora e meia. Chan parece um homem de borracha e faz coisas humanamente impossíveis. É divertido e entretém os olhos. Além disso, tem o humor característico dos filmes de Jackie Chan, cuja personagem está sempre mais próxima de Buster Keaton do que de Bruce Lee. Por entre o divertido humor físico há ainda um cameo do realizador, Sammo Hung Kam-Bo, que também é um tipo impecável. Acção Total é mais um filme da linha de montagem da fábrica de Jackie Chan: não é melhor nem piro que os outros, é igual. Eles só se distinguem entre si por pontuais cenas de pancadaria. O destaque deste vai para uma sequência num corredor cheio de portas, muito Looney Tunes. Um Double Cheeseburger: quem come um, come todos. ![]() Quinta-feira, Abril 24, 2008 JANELA INDISCRETA: Título: Rear Window Realizador: Jeff Bleckner Ano: 1998 ![]() Em 1995, uma notícia chocou o Mundo: o Super-Homem havia sido derrotado. Um acidente equestre derrubarara Cristopher Reeve e danificara-lhe permanentemente a coluna. Em poucos segundos, o homem que haveria de ficar para sempre ligado à personagem do homem de aço tornara-se paraplégico. Felizmente, Reeve era um tipo determinado e corajoso e nunca se resignou, mantendo-se activamente empenhado em ajudar os deficientes motores e acreditando ser possível atingir importantes avanços tecnológicos que lhe permitissem voltar a andar. A par disso também conseguiu manter uma participação mais ou menos regular na sétima arte, em vários cargos. Até que em 1998 alguém teve uma ideia genial. Qual a melhor forma de pôr Cristopher Reeve novamente a estrelar num filme ao mesmo tempo que se mantém empenhado na luta pela igualdade dos defecientes motores, do que fazer um remake de Janela Indiscreta, o clássico de Hitchcock onde um tipo numa cadeira de rodas observa um crime da janela da sua casa e torná-lo deficientefriendly? Infelizmente, o único formato conseguido foi o televisivo e para o realizar foi chamado um tarefeiro dos telefilmes chamado Jeff Bleckner. Para compensar a coisa, complementou-se o casting com dois nomes bem conhecidos dos espectadores: Robert Forster, que havia sido recentemente reabilitado em Jackie Brown; e Daryl Hannah, antiga actriz promotora e actual raínha do série-b. Adaptou-se então a estória aos tempos recentes: Jason Kemp (Christopher Reeve) é um arquitecto bem sucedido que fica paraplégico após um acidente de viação. Contudo, não se deixa abater e com um upgrade hi-tech na sua casa, consegue adaptar o seu novo estilo de vida à sua profissão, emparelhando-se com a bela Claudia Henderson (Daryl Hannah), importante para dar um toque romântico ao filme e compensar qualquer tensão homossexual fortuita com o enfermeiro rastafari, Antonio (Ruben Santiago-Hudson). Mas, paralelo a tudo isto, Jason vai começar a observar a vida dos seus vizinhos, apanhando um homicídio que vai tentar denunciar para que no fim a mensagem moral do filme seja não se esqueçam que apesar de todas as contrariedades os defecientes motores são capazes de fazer as mesmas coisas que os demais. Uma vez vi um filme com amputados shaolins. Um deles não tinha pernas e, antes de surgir a parte em que o mau lhe queimava as pernas com ácido, todas as cenas em que ele aparecia estava sentado. Aqui, é mais ou menos a mesma coisa: como quando o filme começa a personagem de Reeve ainda não está paraplégica, introduz-se uma personagem feminina irresponsável que vai embater de frente com o carro dele. Temos então a personagem secundária mais efémera de sempre: 2 minutos e 2 falas. E todas elas dispensáveis. Veredicto? Muito má escrita de argumento. Mas Janela Indiscreta até não é um mau remake do original. É certo que é uma adaptação (muito) pobrezinha na parte argumentantiva - por exemplo, enquanto que Hitchcock cria um verdadeiro microcosmos nas janelas vizinhas à do protagonista, aqui só existem dois vizinhos para além do escultor homicida: dois gays que estão sempre a dar festas e um casal que está sempre a ter sexo -, mas nota-se que a principal preocupação deste filme foi tornar o público mais consciente para o problema dos deficientes motores. E neste ponto o upgrade foi bem conseguido. È certo que há pouco suspense e pouco génio cinematográfico, mas Janela Indiscreta não é um mau filme para as insónias na TVI. O problema é que se já viu o original, então o Cheeseburger vai-lhe saber a menos. ![]()
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