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Royale With Cheese | ||
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Título: 2012 Realizador: Roland Emmerich Ano: 2009 ![]() Há dias passei os olhos pela lista de filmes estreados em Portugal durante este ano e fiquei chocado com a quantidade ínfima dos que vi, comparativamente com os anos anteriores. É a maldita vida profissional... quem me mandou crescer? Por isso, fico espantado comigo mesmo quando, tendo em conta essa falta de tempo, consigo arranjar um tempinho para ir ao cinema e escolho ir ver bobagens como o 2012. Quanto a vocês não sei, mas eu pensava que os filmes-catástrofe já estavam mortos e enterrados. Roland Emmerich criou-os em Dia Da Independência, matou-os em Godzilla e enterrou-os em O Dia Depois De Amanhã. É o verdadeiro homem da festa, que lança os foguetes e apanha as canas. Por isso, se há alguém que tinha legitimidade para ressuscitar o género era ele. O pretexto desta vez foi o calendário maia, que alguns defendem profetizar o fim do mundo em 2012, depois de um alinhamento cósmico qualquer. No entanto, vê-se que já nem Emmerich tem paciência para isto. Em 2012 não há espaço para as mensagens paternalistas a alertar para o aquecimento global ou as tretas patrióticas pró-americanas (se bem que, hoje em dia, é inevitável pelo menos uma evocação ao 11 de Setembro – aqui com os americanos, liderados pelo seu presidente, a ficarem cobertos de uma nuvem de cinza, qual poeira do World Trade Center). Em 2012 há a destruição do mundo. Ponto. Grande e gigantesca, com muita masturbação digital, que é para isso que as pessoas vão agora aos cinemas. Emmerich recicla a fórmula que já tinha usado nos filmes anteriores: uma família fragmentada entre pai, mãe, os filhos e o marido novo da mãe; um cientista bom coração que descobre antecipadamente que o mundo vai acabar; o seu superior, mas com mau feitio; o presidente dos Estados Unidos; e uns representantes das minorias étnicas. Todos relacionados entre si pelas razões menos plausíveis possíveis, a fugirem da catástrofe final até ao fim apaziguador, prontos para um recomeçar de novo. Exacto, é como uma sequela do Dia Da Independência. Só que desta vez o protagonista é branco e o cientista preto. E, adivinhem: o presidente dos Estados Unidos também é preto. Que surpresa, um presidente americano preto, onde é que já vi isto? A novidade é não ser o Morgan Freeman. Mas Freeman já foi promovido a Deus. Por isso, convocou-se Danny Glover, que quanto mais velho mais sem chama fica. Quanto ao protagonista, John Cusack, tem um problema: é um daqueles actores que toda a gente conhece, já vimos centenas de filmes com ele, mas quando tentamos pensar qual o seu melhor trabalho não conseguimos, porque não tem nada digno de realce. E não, o Alta Fidelidade só se destaca num público muito específico de geeks e nerds da música e da cultura popular. Não sou daqueles pseudo-intelectuais que vai ver um filme destes e depois vem de lá indignado porque nem sequer houve uma abordagem metafísica dos receios do protagonista perante a morte, tendo em conta os recalcamentos da sua infância oprimida pela mãe autoritária. Quando vou ver um filme do Emmerich sei o que me espera. Também não estou a criticar aquelas gaffes geográficas ou o facto de haver sempre rede de telemóvel em pleno holocausto, porque sei que tudo vale neste tipo de entretenimento brainless. Além disso, há que confessar que a primeira meia-hora é extremamente agradável: as personagens desenvolem-se escorreitamente, o mundo começa a desaparecer e os actores a fugir, por entre destruição maciça e efeitos especiais megalómanos. No entanto, o que é demais cansa. E cansa tanta fugida, de limusina, caravana, avião, avioneta, antonov, a pé, a correr... E cansa tanto prédio a cair, tanta continente a afundar, tanto maremoto, tanto tremor de terra... E cansa que, de dez em dez minutos, as personages párem para chorar enquanto outra personagem secundária escapa por um triz à morte. E tudo isto, que eu contava em quinze minutos, demora quase três horas a acontecer. E no fim morrem as personagens moralmente más e os bons sobrevivem todos (e fazem as pazes ou acasalam). Há ainda aquela divertida questão em que, num filme em que a raça humana é praticamente aniquilada, uma das cenas mais dramáticas é quando um cão - nem chega a ser um cão, é um chiuahua - tem que atravessar um cabo de aço para chegar até à dona. Também é divertido as caricaturas do Schwarzenneger ou da raínha de Inglaterra, assim como as referências forçadas a tragédias que facilmente identificamos, como a morte da princesa Diana. Tudo fait-divers num filme inóquo de tanta fantochada e abuso de clichets. Lá vão três horas da minha vida e cinco euros que nunca vou recuperar e que davam para comprar um Double Cheeseburger e ter jantar condigno. ![]() Quarta-feira, Novembro 18, 2009 CHÉRI: Título: Chéri Realizador: Stephen Frears Ano: 2009 ![]() Desde que iniciei este imodesto tasco cinéfilo que sempre quis fazer uma lista com as melhores prostitutas do cinema, algo que, em cinco anos, nunca tive pachorra para fazer, tantos os filmes por onde escolher. Por isso, enquanto continuo por concretizar este objectivo, vou escrever sobre a mais recente prostituta cinematográfica de realce. Falo de Michelle Pfeiffer e do seu novo filme, Chéri. São muitas as actrizes conceituadas que já fizeram de pegas no cinema, de Marlene Dietrich a Elizabeth Taylor. Se estivesse aqui o Freud, dizia já que esse é o inconsciente da mulher ao trazer ao de cima o seu desejo secreto e recalcado de serem pegas pelo menos uma vez na vida. Pode-se concordar ou não com isso, mas o que não se consegue é ficar indiferente perante o regresso (a sério) de Michelle Pfeiffer (que continua em grande forma física, realce-se) so grande ecrã. Mesmo que ainda um pouco distante do melhor que já a vimos fazer. Michelle Pfeiffer é assim Lea de Lonval, uma das belas prostitutas da alta-roda francesa da belle époque, uma cortesã especialista em desposar homens ricos durante o tempo suficiente para lhes sugar o máximo de dinheiro possível e depois saltar para outro amante. O jogo só tem uma regra: não se apaixonar nunca – deixar os sentimentos de fora é fundamental. Pfeiffer vai então “tomar conta” do filho rico e bem parecido de outra colega de profissão: Chéri (Rupert Friend). Ambos são solitários, cada um à sua maneira e, em conjunto, vão-se complementar como as duas faces da mesma moeda. No entanto, como não estão habituados a ter aquela coisa que as pessoas normais chamam de sentimentos, os dois vão enveredar numa espécie de jogo cruel e trágico de ciúmes, que faz a guerra dos sexos de A Guerra Das Rosas parecer uma brincadeirinha de adolescentes com as hormonas aos saltos. Stephen Frears gosta destes filmes de época e, desta vez, joga-se à cosmopolita e barroca França do século XIX com o mesmo protocolo de outros seus filmes anteriores (A Rainha, por exemplo). No entanto, a banda-sonora e o seu tom pouco sério no papel de narrador dá-lhe uma aura descomprometida. Enquanto Sofia Coppola fez de Maria Antonieta uma tragédia punk, Stephen Frears faz de Chéri uma tragédia algures entre Eduardo Mãos-de-tesoura e o kitsch de 8 Mulheres. Para além da batalha psicológica entre os protagonistas, em Chéri interessa também muito a abordagem pouco convencional de um universo que estamos habituados a ver de outro prisma no cinema. Nos filmes sobre prostituição, o costume são as pegas conseguirem ultrapassar essa condição e estabelecerem-se na vida como princesas (uma variação da história da Gata Borralheira, vide Pretty Woman - Um Sonho De Mulher), em vez de pegas convictas e com um papel social bem vincado. Infelizmente, Frears não resiste a alguns tiques de romance televisivo. E nem falo da presença do narrador (a eterna discussão se o narrador é ou não desnecessário), mas antes de um flashback aqui ou um gesto de cabeça mais revelador a rematar uma cena acolá. Menção fugaz ainda à aparição da saudosa Anita Pallenberg, a modelo e actriz wannabe que se tornou conhecida nos loucos anos 60 por ter andado com três Rolling Stones (You Got The Silver, Wild Horses e, alegadamente, Angie foram temas escritos sobre si). Menção já não tanto fugaz é ao menu McBacon, refeição que serve para qualificar esta crítica opinativa em relação a Chéri. ![]() Sábado, Novembro 14, 2009 VESTIDA PARA MATAR: Título: Dressed To Kill Realizador: Brian De Palma Ano: 1980 ![]() Uma das especialidades de Brian De Palma, realizador mui respeitado aqui no tasco, é o filme de gangsters. No entanto, se há coisa que o norte-americano sempre gostou foi de nunca ficar confinado a um estilo. Por isso, não é de espantar que, na década de 80, tenha experimentado o thriller-erótico por duas vezes (primeiro este Vestida Para Matar e depois Testemunha De Um Crime). Até porque é um estilo que lhe permite usar as duas ferramentas onde é exímio: o (neo)noir e o suspense. A abertura de Vestida Para Matar é um mimo. Após passar o genérico, um travelling em câmara-lenta (para além de mestre do suspense, De Palma é também o rei dos travellings) leva-nos de um quarto para uma casa de banho, com uma luz recortada e uma espécie de névoa na lente, a evocar de alguma forma o patine da época dourada de Hollywood. Nela está um homem a barbear-se e a escultural Angie Dickinson (em grande forma física, diga-se) em pleno banho. O travelling continua e entra no poliban com Angie, que enquanto observa o marido, vai-se acariciando até acabar em alta masturbação, à medida que a banda-sonora de Pino Donaggio ganha volume, com uns gemidos dissimulados entre os violinos. A cena é fantástica e dá-nos logo a perceber ao que vamos: Angie Dickinson está carente e a atitude passiva do seu marido enquanto fazem amor não ajuda. Por isso, como o psicólogo (Michael Caine) não a ajuda, Angie está desesperada por contacto humano. Por isso, mal um tipo num museu lhe dá um olhar mais insinuador, a sua líbido dispara a mil (em mais uma cena brutalmente bem filmada, em sete minutos de ausência de diálogo, apenas com olhares, movimentos de câmara e, lá está, travellings), acabando por ser comida à bruta num taxi e, logo a seguir, no apartamento desse desconhecido. A coisa corre nestes moldes até que Brian De Palma arma-se em Alfred Hitchcock e mata a protagonista a meio do filme. Afinal, a estrela aqui é Michael Caine, um psicólogo a quem um paciente transexual pretende tramar: rouba-lhe a navalha da barba e decide matar as suas pacientes até que ele dê autorização para a sua mudança de sexo. Nisto entra em cena mais uma candidata a vítima, a prostituta Nancy Allen, o filho metade geek metade MacGyver de Angie Dickinson, Keith Gordon (assustadoramente parecido ao puto que faz de Harry Potter), e um polícia fanfarrão, arrogante e com a mania que é engraçado, um muito novinho Dennis Franz. A sinopse não é famosa: um misterioso transexual que mata senhoras até ao twist final tremendamente previsível e uma tipa que o tenta apanhar com a ajuda de um miúdo. Já vi episódios de Uma Aventura mais imaginativos. No entanto, a genialidade de Vestida Para Matar está em Brian De Palma, que mostra como um realizador pode fazer um filme, para o bem e para o mal, seja na forma como filma, como manipula o suspense, ou como não tem medo de experimentar, utilizando aqui aquela sua imagem de marca que são os split-screens, que servem tanto para flashbacks como para a história decorrer simultaneamente em dois sítios diferentes. No fim, existe ainda um momento wikipédia, em que os intervenientes explicam o que é ser transexual, que dá ao filme uma aura camp, o que pode ser facilmente confundida com mau filme (talvez isso tenha valido a Vestida Para Matar uma nomeação aos Razzies), algo que me leva a pensar que Brian De Palma tem assuntos mal resolvidos com a sua sexualidade. E existe ainda um travelling a acompanhar uma enfermeira boazona que, se não foi ali que Tarantino foi beber para a cena semelhante de Darryl Hannah no Kill Bill 2, então é uma grande coincidência. Vestida Para Matar é um verdadeiro filme de culto, daqueles que se amam ou odeiam com igual facilidade, na ordem do Le Big Mac. ![]() DIAS DE FUTEBOL: Título: Días De Fútbol Realizador: David Serrano Ano: 2003 ![]() O futebol é um tema complicado no cinema. Apesar de continuar a ser explorado, de forma mais ou menos regular, as tentativas continuam a sair quase todas furadas, excepcionando alguns honrados esforços. No entanto, este ano até nem nos podemos queixar, com dois filmes de futebol que parecem bem interessantes (alguém mencionou Maldito United ou Matem O Árbitro?). Mas como ainda não vi nenhum dos dois, decidi pegar em Dias De Futebol, que estava aqui na pilha de dvds na minha secretária. E se, por um lado, me lembrava de ler alguma coisa vagamente positiva sobre ele quando estreou, por outro, o facto de ter vindo como oferta num jornal desportivo não me dava muitas expectativas. Dias De Futebol é uma comédia ligeira e descomprometida, na tradição do cinema espanhol de humor, com muita identidade e paixão na guelra. Dias De Futebol é um filme sobre a vida de sete amigos, todos eles espertalhões e fura-vidas às suas maneiras e todos eles a braços com uma disfuncionalidade qualquer, desde o tipo que está há dez anos para acabar o curso de Direito e que se masturba a telefonar para as linhas de informação dos bancos, até ao tipo com problemas de comunicação com a esposa, grávida e ávida por voltar a ter sexo (e uma relação a sério). De entre este grupo destacam-se os dois líderes do filme: Antonio (Ernesto Alterio), um rufia com problemas em controlar o seu mau feitio, que sai da prisão com umas teorias manhosas de psicologia; e Jorge (Alberto San Juan), um executivo com vida de cão e um desgosto de amor. É Antonio o dínamo do filme, apesar de Dias De Futebol viver de uma forte personagem colectiva, e é ele que faz as pontes entre todas as pontas desse grupo. E é ele que decide ajudar os seus amigos com uma sessão muito própria de psicanálise, que envolve a participação num torneio de futebol de sete. E esses jogos vão ser o reflexo da evolução psicológica daquela gente, em que começam por ser goleados nos primeiros jogos e, no fim, apesar de continuarem a perder, já vão arranjando forças para subornar os árbitros e contornarem o sistema, ou não fossem todos eles espertalhões (dignos de qualquer Filme Da Treta). Esta é a parte divertida do filme, com diálogos escorreitos, que fazem lembrar os chick flicks para gajos de Judd Apatow e o caos de Woody Allen, e com uma vertente screwball cheia de piadas sexuais (ou não fosse este um filme para gajos, com futebol e tipas giras), com alguns gags a lembrar Doidos Por Mary. A outra parte do filme é a de Jorge, que traz a mensagem moral e o tom mais sério a Dias De Futebol, com o seu dilema amoroso e outras questões metafísicas. O balanço é razoavelmente equilibrado, apesar de algumas coisas não coserem bem entre si - como, por exemplo, aquela necessidade do realizador dar uma componente romântica a Antonio, com uma relação amorosa que cai do céu por não ter unhas. No entanto, por entre meia dúzia de cenas bem conseguidas, um argumento esforçado e um par de inspiradas situações, Dias De Futebol não ofende ninguém. E quanto ao seu valor nutricional, estamos a falar de algo na ordem do menu McChicken. ![]() Terça-feira, Novembro 10, 2009 ASSASSINOS NATOS: Título: Natural Born Killers Realizador: Oliver Stone Ano: 1994 ![]() Assassinos Natos é um daqueles filmes cuja primeira visualização é uma experiência sem igual. Assistir pela primeira vez a Assassinos Natos é como assitir pela primeira vez a uma filme do Godard, onde, de repente, novos caminhos são de novo abertos e todas as convensões cinematográficas tomadas até então como certas e garantidas são estilhaçadas e caem por terra. A partir daí o filme até pode não ser grande coisa e as restantes visualizações podem ser sempre a descer, mas pelo menos o primeiro impacto é ímpar e irrepetitível. Para começar, um pouco de história: depois de Amor À Queima-roupa, Quentin Tarantino escreveu o argumento deste Assassinos Natos. Contudo, depois de ver o que Oliver Stone lhe fez, Tarantino renegou completamente a criação. Aliás, a melhor descrição do filme é sua: é como a Disneylândia nos ácidos! Quanto a Stone, começou por tentar fazer um filme de acção daqueles de que Arnold Schwarzenegger se orgulhasse de ter feito, mas não resistiu à tentação de se imiscuir na identidade norte-americana mais uma vez. A base de Assassinos Natos é uma fábula romântica sobre a mais pura história amorosa de um casal de psicopatas homicidas, Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliette Lewis), de regresso à forma mais primitiva de ser e sentir do ser humano, em completa errância pela route 66(6). Com contornos surreais e devidamente malignos (olá David Lynch perturbador, de Veludo Azul), Assassinos Natos é um banho de sangue em road movie que emula, primeiro, Os Noivos Sagrentos (aliás, em ambos as personagens são baseadas nos serial killers Charles Starkweather e Caril Fugate), e depois Coração Selvagem (olá novamente David Lynch). No entanto, aquilo que pode ser facilmente confundido com uma apologia à violência, é muito mais um Dr. Estranho Amor do que um Laranja Mecânica. Ou seja, uma farsa subversiva, neste caso ao poder dos media, à massificação da informação e ao estrelato fugaz da televisão. Tudo isto, dito assim, até parece ser um filme normal. O pior é depois, em que Assassinos Natos é verdadeiramente retalhado. Começa logo por ser filmado com planos que nunca estão quietos e com enquadramentos igualmente esgrouviados. Depois, Stone edita a mesma cena duas vezes e cola-as uma por cima da outra, muda as cores, mete a preto e branco, satura os verdes ou usa filtros manhosos. Além disso, usa constantemente projecções nas fachadas dos prédios, nas janelas e nas paredes, que surgem como um símbolo poderosíssimo à omnipresença da televisão, objecto comum em qualquer distopia que se preze. Tudo isto misturado com imagens de filmes antigos, frames de sonhos surreais à la Jodorowsky, cenas de sexo animal da BBC ou anúncios à Coca-cola. Evidentemente, isto produz o tal efeito de Disneylândia nos ácidos. Por um lado faz lembrar um pouco a demência das drogas de Delírio Em Las Vegas - é sempre curioso ver Robert Downey Jr. em filmes que fazem apologia às drogas -, mas com uma história coerente, uma vez que é orquestrada por trás a tal farsa ao poder dos media. Claro que a parte mais interessante é o descontrolo homicida do casal Mickey e Mallory, potenciado pelos truques de Oliver Stone (que podem levar ao enjoo se não se habituar a eles), numa espécie de Bonnie e Clyde da geração fast food, com Woody Harrelson a descolar-se automaticamente do seu papel em Cheers, Aquele Bar, e com Juliette Lewis a fazer o que sabe fazer melhor: gaja-trash, qual Iggy Pop de saias. Concluindo: o primeiro impacto de Assassinos Natos é avassalador e vale um Royale With Cheese de caras. Depois, das duas uma: ou aquela espécie de cinema em movimento o seduz e continua a venerar o filme ou habitua-se e começa a ficar cansado de tanto artifício desnecessário, perdendo a cada visualização o interesse pelo filme. Depois, há uma última opção: analisar Assassinos Natos sem o fogo-de-artífico. E aí, não é nada de especial, apenas um McChicken (nos dias mais simpáticos). ![]()
Posted by: dermot @
11:10 PM Sábado, Outubro 31, 2009 ALBERT, O GORDO: Título: Fat Albert Realizador: Joel Zwick Ano: 2004 ![]() Às vezes assusto-me comigo próprio. Depois de uma semana e tal sem tempo para me coçar, dou por mim com um tepinho livre para relaxar. Evidentemente, decidi ir ver um filme. E não é que, do molho de dvds comprados recentemente que estão aqui a apanhar pó em cima da secretária (Voando Sobre Um Ninho De Cucos, Vestida Para Matar ou Assassinos Natos, só para citar os primeiros da pilha), escolho uma coisa chamada Albert, O Gordo, que deve ter aqui vindo parar em alguma compra por atacado. Mas isto faz algum sentido? Obviamente que também não me pus a ver o filme, assim se mais nem menos. Preparei-me para o que podia dali vir e fui buscar um pau para furar os olhos, se necessário. Homem prevenido vale por dois. É que, ao olhar para a contracapa da caixa do filme, percebi que a minha noite tinha tudo para correr mal. Albert, O Gordo é a adaptação cinematográfica de uns desenhos-animados criados por Billy Cosby, em que a gangue benfeitora de Fat Albert - um tipo gordo que ajuda toda a gente que tem problemas - atravessa a televisão para o mundo real para ajudar a Dania Ramirez, a Callisto dos X-men 3 - O Confronto Final, e a sua irmã (Kyla Pratt). Urge aqui fazer uma pausa para falar de Billy Cosby. Se ainda se lembram do Cosby Show, que dava nos primórdios da SIC (ou seria da TVI?), ou se costumam ver as paródias regulares que o Family Guy lhe faz, podem saltar a leitura deste parágrafo. Caso contrário, deixem-me explicar-lhes que o Billy Cosby é o representante para toda a famíliada comédia afro-americana. Um Richard Pryor que não diz asneiras e que as troca por caretas, muitas caretas, todas elas dignas de uns Malucos Do Riso. Comparando com a realidade portuguesa, se o Richard Pryor é o Fernando Rocha (pelas asneiras que diz, não pela capacidade humorística), então Billy Cosby é o Badaró. Não podemos então esperar mais de Albert, O Gordo do que um filme juvenil. O problema é que, se vem da cabeça do Blly Cosby, é porque é mais infantil do que juvenil. Todas as oportunidades são boas para dizer não às drogas e louvar os princípios da amizade e do companheirismo. O problema é que o filme parte do pressuposto que todas as crianças, para além de ingénuas, são burras, e vê-se tentado a explicar todas as suas próprias piadas, que já são orientadas para putos com 5 anos - mais explícito que isso era impossível! Além disso, tenho um problema com o Fat Albert. Que personagem mais irritante! Arrogante e com a mania que sabe mais que os outros, sempre a dizer "vou-te ajudar e não saio daqui até te ajudar". Mas quem raio é aquele puto gordo para vir dar-me ajuda? Se queres mesmo ajudar, não estavas sempre a repetir a mais irritante catchfrase de sempre - hey, hey, hey - que: a) não tem piada b) é irritante c) não tem piada e) é irritante. Para filme juvenil, Albert, O Gordo até tem o ritmo certo, é colorido e ruidoso. No entanto, para um filme de pretos para pretos, que devia ser o Blues Brothers - O Dueto Da Corda do hip-hop, ter só a música do genérico repetida até à exaustão em ligeiras variações é uma desilusão. Mas estamos a falar de um filme do Cosby Show, estar à espera de mais é ser demasiado optimista. Um Happy Meal não é nada mau, digo-vos já. ![]()
Posted by: dermot @
11:34 AM Quinta-feira, Outubro 22, 2009 TOP 5: Há uns dias atrás, estava eu a discutir bandas-sonoras com a Jubylee na página do Royale With Cheese no Facebook (que, afinal, sempre serve para alguma coisa), quando disse que o Ennio Morricone era o Pelé das bandas-sonoras. Não é novidade eu dizer isso e, aliás, aposto que a maioria das pessoas concorda comigo: é senso comum concordar com a qualidade do maestro italiano na feitura de bandas-sonoras. No entanto, nós dizemos isto quase da boca para fora, uma vez que o homem tem mais de 500 filmes e nós não conhecemos nem metade (metade? nem um terço sequer). Pois bem, o Royale With Cheese decidiu dar uma ajudinha com o seu TOP 5 DAS MÚSICAS DE ENNIO MORRICONE (o que é manifestamente pouco, mas não estou com paciência nem tempo para elaborar uma lista mais longa): Main Theme, de Veio Do Outro Mundo (1982) ![]() Sim, eu confesso. Esta não é um dos melhores temas do maestro (custou-me tanto deixar de fora o Man With Harmonica), mas resolvi pô-la aqui, no último lugar desta lista, para ilustrar uma das faceta de Morricone: a versatilidade. O homem não se limita a fazer músicas; olha para o filme, entende-o e entende o próprio realizador. Em Veio Do Outro Mundo, Morricone não só fez aquilo que se esperava de um thriller de ficção-científica com monstros, como absorveu a própria identidade do realizador. De tal forma, que se não soubessemos, pensávamos que esta banda-sonora também tinha sido assinada pelo Carpenter. 4º Lugar Love Theme, em Cinema Paraíso (1988) ![]() Este é um dos temas mais famosos de Ennio Morricone e aparece em tudo o que é colectânea dos melhores hits do senhor e é alvo de cover por parte de tudo o que são músicos eruditos wannabe. É uma grande música, é certo, mas é sobrevalorizada pelo próprio filme em si. É que, ouvir isto, é como estar literalmente a ver Cinema Paraíso e todo aquela nostalgia invade-nos e deixa-nos amaricadamente comovidos. É a única música orquestral da lista e isso quer dizer muito. 3º Lugar Matto, Caldo, Soldi, Morto... Girototondo, em Vergogna Schifosi (1969) O filme é uma beca obscuro, mas dizem os entendidos na obra do senhor que é um dos seus melhores trabalhos. Não sei se é assim, mas que gosto dele à brava, gosto. Este é o tema principal, que depois tem ainda mais um par de variações, mas no essencial é uma espécie de música ambiente, que mistura o tropicalismo de uns Mutantes, por exemplo, com os Oompa Loompas da fábrica do Willy Wonka. Meio psicadélico, meio onírico, é uma música que serve para viajar, serve de música ambiente e até de música de elevador, sempre com igual eficácia. E tem uma das imagens de marca de Morricone: uma voz feminina meio sussurrada. 2º Lugar L'estasi Dell'oro, em O Bom, O Mau E O Vilão (1966) É um dos casamentos mais felizes da história do cinema. E não estou a falar do casamento de Ennio Morricone com Sergio Leone em geral, mas sim desta cena em particular: o duelo decisivo que é o clímax de toda a triologia dos dólares do homem sem nome. A cena é extremamente bem filmada, com Leone a cristalizar aquela sua forma fantástica de moldar o tempo, abrandando o passar dos minutos de forma a aumentar a tensão e o suspense até à catarse final; e Morricone compõe uma música genial, sempre em crescendo, emulando os uivos dos coiotes do deserto com outra marca da música do maestro: a melodia assobiada. Ambas são fantásticas e misturadas fazem uma mistura explosiva! 1º Lugar Magic & Ecstasy, em O Exorcista 2 - O Herége (1977) E eis que, chegados ao topo da lista, fica provado o quão eclético é o maestro. Ennio Morricone adapta-se a tudo, sejam western spaghetti, giallos, dramas, épicos familiares de quatro horas ou mesmo sequelas manhosas de filmes de terror que tentam descaradamente capitalizar (leia-se espremer) o sucesso do filme original. Falo, obviamente, dao segundo Exorcista, uma xungaria non-sense, com um padre a pôr a Linda Blair a fazer regressão hipnótica ligada ao cérebro de outra pessoa. E descobrirmos que o demónio que a possui no filme anterior se chamava... Pazuzu(!). Enfim, a única coisa que se safa nesta coisa a que se atreveram de chamar filme foi esta theme-song brutalíssima, uma malha de surf-rock possuída por ecos de doom-metal e pelo fantasma do Alice Cooper. Psycho-surf que faz parte habitual da playlist da grande dupla de djs, Travelling Circus. Para ouvir as músicas, clicar em cima das imagens Conclusão: Ennio Morricone é como o Tarantino na forma como utiliza a música nos filmes: utilizando a faixa sonora não só para dar profundidade estética à cena, mas para fazer parte integrante da própria, dialogando inclusive com os actores. É por isso que temos associadas todas as cenas marcantes dos filmes do Tarantino a uma música: o Michael Madsen a cortar uma orelha a Stuck In The Middle With You, a Uma Thurman e o John Travolta a dançarem o twist a You Never Can Tell ou a Darryl Hannah a ir espetar uma injecção mortal a Uma Thurman muito calmamente a Twisted Nerve. Assim como também não conseguimos ouvir uma música do Morricone sem criarmos, automaticamente, uma imagem mental da cena do filme em causa. Admito que possam não ser casos únicos no cinema, mas agora não me recordo de mais nenhum. No entanto, a diferença entre ambos está em que, enquanto Tarantino utiliza músicas de outros, Morricone cria os seus próprios temas. Terça-feira, Outubro 20, 2009 FINAL CUT - A ÚLTIMA MEMÓRIA: Título: The Final Cut Realizador: Omar Naim Ano; 2004 ![]() Robin Williams é, injustamente, um actor esquecido, que acaba por ficar refém das comédias que maioritariamente faz. E a culpa nem é só do facto desse ser um género normalmente subvalorizado; é também sua, porque, na maior parte das vezes, salta de erro de casting em erro de casting, em preguiçosos papéis em que só tem que fazer aquilo que faz melhor: imitações e contar piadas, com o seu ar de pai de família bem disposto. Depois, de tempos a tempos, joga-se a um filme mais ou menos sério e dá-nos excelentes prestações. Filmes como Bom-dia Vietname, Despertares ou O Clube Dos Poetas Mortos (vénia) são prova disso. No entanto, foi Final Cut - A Última Memória que chegou com o rótulo de que este é que vai ser o filme (repararam no itálico do artigo definido?). Um filme sério, um realizador debutante de um país exótico e um elenco mais ou menos valioso, com Mira Sorvino e Jim Caviezel. Final Cut - A Última Memória é um filme espartalhão, que tenta parecer mais profundo e pseudo-qualquer-coisa do que realmente é. E aqui faz lembrar Efeito Borboleta, só que em vez de começar com uma citação conhecida que depois não interessa nada para a história, começa com as leis do código dos editores, que faz lembrar as leis da robótica de Isaac Asimov (e, por consequência, a adaptação infeliz de Eu, Robô). Os editores são então os tipos responsáveis por fazerem os filmes para os rememoriais, cerimónias fúnebres em que passam um vídeo do falecido com as suas melhores memórias, retiradas de um chip implantado no seu cérebro à nascença. A premissa é muito boa e é daquelas que vale um filme. Tem o seu quê de Philip K. Dick e comporta as tais questões morais e existenciais de que a ficção-científica tanto gosta de debater, através das suas metáforas e analogias espaciais. Por isso, em Final Cut - A Última Memória existe um sub-enredo que tenta explorar esta questão, personificado por um Jim Caviezel com uma barba postiça que parece um bicho atropelado espalmado na cara. E, pelo facto de existir uma teoria da conspiração em modo thriller futurista, a coisa recorda (injustamente) 12 Macacos. Omar Naim tenta criar um universo muito próprio, ou não estivessemos a falar de um futuro hipotético, e volta a ser demasiado espartalhão. Por exemplo, porque raio é que os dados retirados do chip são apresentados em placas transparentes de acrílico e convertidos em discos brilhantes e com ranhuras? Que mal têm os cds?? Tudo isto são pormenores, mas quando chegamos ao fim do filme e isto continua a aborrecer-nos, é porque algo correu mal em Final Cut - A Última Memória. O filme tenta criar assim uma atmosfera asséptica e hermética, com um Robin Williams em modo contido, mas isso transborda para o próprio filme, que se move em modo maquinal, sem chama e sem alma. No meio de tanto movimento de câmara mais do que previsível e uma relação entre personagens do mais aborrecido que há, não conseguimos deixar de pensar porque raio insistiram naquela barba falsa do Caviezel. E, depois, no meio, sharam... nova espertalhice: o grande momento-charneira do filme acontece quando Robin Williams reconhece uma pessoa, uns quarenta anos depois, pelo facto de ela... limpar os óculos à camisa(!). Sim, porque ninguém limpa os óculos à camisa(!!). Especialmente as pessoas que usam óculos(!!!). Final Cut - A Última Memória faz então eco da questão metafísica da privacidade e do big brother, mas de uma forma demasiado forçada. E, além disso, a história parece sempre ir em contraciclo, terminando num twist que é um autêntico anti-climax. Tão desinteressante, que não paramos de nos lembrar da barba falsa de Jim Caviezel. Será que o dinheiro gasto num Chesseburger não dá para comprar uma barba melhorzinha? ![]()
Posted by: dermot @
12:14 PM Quinta-feira, Outubro 15, 2009 TAKING WOODSTOCK: Título: Taking Woodstock Realizador: Ang Lee Ano: 2009 ![]() Ang Lee é o David Bowie do cinema. È que não é apenas um realizador versátil, capaz de mudar de género ou estilo a cada filme; é um verdadeiro realizador camaleão, que muda de pele de trabalho para trabalho, que por sua vez são cada vez mais improváveis e que, no fim, consegue safar-se em todos com igual destreza. Duvido que alguém conseguisse fazer tão bem um filme de wi-fu, um de super-heróis, um sobre cowboys gays e um sobre Woodstock. Depois de ter revisitado uma das impressões digitais do cinema norte-americano, em O Segredo De Brokeback Mountain, Ang Lee voltou a mergulhar na América profunda para fazer um filme sobre o mítico festival de Woodstock, que, em 1969, marcou uma década de paz e amor, contra-cultura, hippies, rock'n'roll e drogas. E mais uma vez, fá-lo como se fosse um americano de gema, absorvendo a sua identidade como se fosse um Douglas Sirk hippie. O filme até faz sentido, uma vez que celebrámos recentemente 30 anos de festival, mas Taking Woodstock não é nem um documentário, nem uma reconstituição. Então o que é? È uma espécie de fábula, sobre Jake Teichberg (Henry Goodman), um adolescente que, ao tentar salvar da bancarrota o resort caquético da sua família, contacta Michael Lang (Jonathan Groff), o mentor de Woodstock, para que ele instale o festival no quintal da sua casa. Depois, o resto é história: o festival recebe, durante três dias, o número astronómico de 500 mil espectadores, a organização vê-se obrigada a abrir as portas a tanta gente, os autócnes de Bethel rendem-se às evidências e acolhem aqueles jovens todos e, de repente, a história do rock'n'roll e de toda uma geração fica irremediavelmente marcada. Mais do que um filme sobre Woodstock (que está lá, omnipresente, mas nunca o vemos, é sempre um som de fundo ou um mar de gente que nos impede de alcançar o palco), Taking Woodstock é uma fábula familiar, sobre um jovem, a sua família disfuncional (fantástica Imelda Staunton, em modo velha rabugenta) e os seus problemas tabus (homossexualidade ao de cima), numa espécie de Quase Famosos, mas sem a componente on the road. No entanto, onde Taking Woodstock é verdadeiramente feliz, é ao captar o espírito do festival, da geração hippi e da contracultura. E no meio disto, tem a mais realista cena de tripar com ácido que o cinema já viu! Filme mais de bonecos do que de personagens (Michael Lang, por exemplo, que nós conhecemos bem, é uma caricatura), Taking Woodstock é divertido porque tem bonecos bastante engraçados. No final, há ainda tempo para o feelgood movie e nós recordamos Uma Família À Beira De Um Ataque De Nervos, na forma como aquela família se reencontra consigo mesma. O filme entretém, faz-nos rir, comove-nos e transporta-nos para o interior de Woodstock, algo que, às vezes, até é mais difícil acontecer com o documentário de quatro horas e planos truncados. Vale, na boa, um Le Big Mac. ![]() Quarta-feira, Outubro 14, 2009 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial |
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